ENTREVISTA: Novos desafios da psicologia para formar profissionais e cuidar da saúde mental no pós-pandemia

Os dois últimos anos mostrou ao mundo a importância de cuidar da saúde mental e para sobreviver ao período de distanciamento social. Em setembro foi ressaltada a campanha de combate ao suicídio e o Blog da Mannu entrevistou a Psicóloga Luísa Marianna Vieira da Cruz, 33 anos, que atua há 11 anos na área prestando serviço a Prefeitura Municipal de Serra Talhada e como docente do curso de Psicologia da Faculdade de Integração do Sertão (FIS).

No debate franco, a psicóloga analisa como o período de pandemia alertou a população para as questões e cuidados com a saúde mental e os novos desafios da Psicologia para enfrentar esse novo momento, se reinventar para formar novos profissionais preparados para ajudar pessoas em sofrimento psicológico.

Confira a entrevista na íntegra:

A psicologia se tornou uma das áreas de conhecimento mais buscadas na internet, assim como seus profissionais. Em tempos pós-pandêmicos, como você avaliou as campanhas do Setembro Amarelo em Serra Talhada?

Ainda que a possibilidade de acesso as vacinas, por maior parte da população, leve a redução de casos graves de infecção por COVID-19, é importante enfatizar que apesar das regulamentações e orientações possibilitarem um “afrouxamento” do isolamento social, ainda estamos vivenciando a pandemia do coronavírus. Dito isto, é importante falarmos que existem muitas críticas ao Setembro Amarelo em si, até pela tendência a reduzir as demandas as questões individuais de cada um, desconsiderando o contexto social e o fato de que muitos não conseguirem nem suprir o básico, necessitando assim, do auxílio das políticas públicas. 

Nessa realidade, nas diversas categorias profissionais, tem-se o intuito de compreender a importância de falar/refletir e investir em cuidados com a saúde mental e principalmente potencializar para que os serviços de saúde, prioritariamente os ofertados pelo SUS sejam fortalecidos e possam ofertar um cuidado biopsicossocial. Como também, possibilitar, a quem necessita, o conhecimento de onde buscar auxilio profissional. Então, as ações realizadas devem ser no intuito de desmistificar os tabus diante do sofrimento mental/psíquico, sem desconsiderar as relações desse sofrimento com as questões sociais, genéticas, ambientais, entre outras. Somado a isso, as ações visam ofertar informação e orientação a população para um maior conhecimento dos serviços de saúde e das alternativas ofertadas para cada sofrimento. 

Compreendemos que vivenciar uma pandemia (um evento que nos leva a repensar sobre as nossas certezas – vida, saúde, doença) tem impacto nas nossas formas de trabalho, de sobrevivência, nas nossas relações, tudo isso repercute no nosso modo de vida e nos coloca diante de uma fragilidade que não foi cogitada anteriormente. As ações que pude acompanhar foi considerado esses aspectos, e fortalecendo/orientando as pessoas quanto aos cuidados e serviços disponíveis para acolhimento de cada demanda apresentada a nós. 

No seu consultório e/ou sala de aula aumentou a incidência de casos de transtornos mentais? Sofrimento psicológico ou pacientes com queixas suicidas? 

Diretamente não, mas foi possível acompanhar e discutir com outros colegas de profissão acerca da demanda que estamos recebendo. Assim, percebi que essa demanda surge com mais força e em maior quantidade, mas que a busca de escuta e acolhimento profissional também se torna mais presente. O que ficou evidente desde o início da pandemia do COVID-19 foi uma maior procura de cuidados em saúde mental. 

NOVOS PROFISSIONAIS

Como tem trabalhado/ensinado estudantes para sanar essas questões? 

Enquanto psicóloga, professora e profissional de saúde mental, o trabalho é sempre no sentido de acolhimento e escuta, considerando o meu espaço de atuação claro. Além disso, procuro dar enfoque as questões éticas e aos encaminhamentos que se fazem necessários, ofertando orientações com o intuito de promover cuidado diante das dificuldades que me são apresentadas. 

É importante enfatizar que não cabe julgamento nessa escuta, assim qualquer pessoa que sinta necessidade de falar de suas dificuldades pode procurar esses serviços com a certeza de que todo sofrimento importa e é passível de cuidado, seja de qualquer ordem. Mediante isso, acredito que é importante enfatizar que será necessário o diálogo com outros profissionais e instituições para que possamos ofertar um cuidado integral e direcionar as demandas aos locais que possam fazer o acolhimento. Por fim, esse é um viés que não podemos perder, afinal, o suicídio é uma expressão de sofrimento intenso. 

Contudo, também não podemos ignorar as outras formas de expressão de sofrimentos que acabam por ser ignoradas e negadas por se apresentarem de forma mais “leve”.Vale lembrar ainda que o adoecimento mental é constituído mediante muitas violências, de todas as ordens, e também das dificuldades inerentes a própria vida. Dificuldades essas que para uns são facilmente ultrapassadas, enquanto para outros elas acabam por ser fonte inesgotável de sofrimento. 

Afinal, cada pessoal tem a sua história, suas experiências, sua forma de lidar com os sentimentos, de lidar com as dificuldades, mas também estratégias de enfrentamento.É comum que algumas pessoas,em um dado momento,não estejam conseguindo lidar com as dificuldades sem ajuda, o que já é um indício de que se precisa de cuidado. Nessas situações, é importante buscar auxílio profissional, até para que possamos evitar sofrimentos mais graves em sua expressão. 

TERAPIA ONLINE

Durante a pandemia e o isolamento social, a procura por psicólogos aumentou consideravelmente e o formato de terapia online foi implantado como estratégia para sanar o sofrimento psicológico ao redor do mundo no momento que todos deveriam ficar distantes. Mesmo com a reabertura dos serviços, a internet ainda tem conectado profissionais aos seus pacientes em qualquer lugar do mundo. 

A professora do ensino básico L. S. M., de 30 anos, que pede para ter sua identidade preservada, relatou ao Blog da Mannu, que após seis meses de isolamento social e trabalho remoto que iniciou a terapia online com uma profissional de São Paulo. 

"Sempre senti necessidade da terapia, mesmo antes da pandemia, mas tive receio de encarar as sessões pessoalmente, com a pandemia vi que os psicólogos começaram a crescer no atendimento online e tomei coragem. É na terapia que consegui entender muitos dos meus traumas, que enfrentei o período de isolamento social e hoje sigo em tratamento. A partir disso comecei a mostrar a minha família a importância do cuidado com a saúde mental e influenciá-los a fazer terapia também", afirmou.

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